Missa, sinônimo de Sacrifício


O Sacrifício inicia-se. O sofrimento não é pouco. Investidas e cusparadas acertam Nosso Senhor. O Cordeiro, porém, não reage. Cada golpe faz o Céu bradar de tristeza. Porém, ainda que todos os anjos gritassem e soassem cornetas simultaneamente, não seria possível ouvi-los.

Os carrascos, ao som de uma música carismática muito animada, açoitam o Cristo. Aquela tortura parece não ter fim. Após uma demora demasiada, a música termina, bem como os golpes físicos dados em Nosso Senhor Jesus, parando, assim, os dois castigos simultaneamente.

A veste de púrpura passa quase despercebida por muitos, afinal, há bastante gente vestida de uma forma, digamos, estranha para a ocasião: não muito pudica, respeitosa ou simplesmente apropriada para a singular ocasião. Algumas mulheres despiram-se de seus lenços, que outrora cobriam suas cabeças, e rasgaram as mangas de suas blusas. Alguns homens usam não mais que chinela de dedo, uma blusa e um calção. E, mais triste ainda, alguns sacerdotes tiraram suas batinas, e no sacrifício nem sempre usam todos os paramentos. O manípulo foi deixado no meio do caminho. A casula parece ter o mesmo destino.

Tecem uma coroa. O Senhor do Céu e da Terra ganha um objeto feito com algo sem valor. Não é uma bela coroa de ouro e pedras preciosas – pois isso seria um absurdo aos olhos dos comunistas de plantão –, mas um simples conjunto de espinhos. É incrível como quase ninguém ver o que está a acontecer. E Jesus é ferido mais uma vez.

O carregar da Cruz é outra dolorosa tarefa, e fica ainda mais difícil, com o povo andando para lá e para cá simplesmente para encontrar outrem que está distante para dar-lhe a paz… de Cristo!

As mulheres de Jerusalém não puderam ouvir o que disse Nosso Senhor Jesus, pois uma figura praticamente mítica, o “animador da celebração”, conclamou o povo a manter-se entusiasmado, com palmas e mais canções, desta vez de forró e pagode. O órgão e um grupo que cantava o canto gregoriano foram esquecidos e quase pisoteados pela multidão eufórica que apreciava e fazia todos os passos do samba a tocar.

Chegamos ao Calvário. Os romanos pregam o Homem-Deus na Cruz, martelando cada prego compassadamente às palmas ritmadas da assembléia que acompanha a percussão da bateria. Cada palma, uma martelada.

Pouco depois há uma salva de palmas. É difícil, porém, saber se estas são para os pagãos que fizeram o serviço bem feito, para os judeus que entregaram o Salvador ou para o habilidoso rapaz com as baquetas nas mãos.

Um grupo de dança, então, entra em cena e começa a fazer sua performance diante da Cruz. Ninguém consegue entender o motivo disso ou sequer o que a dança quis dizer, se é que quis dizer algo. Logo, porém, entra o grupo de teatro que, também no Gólgota, faz sua apresentação.

Não é preciso muito tempo para o povo esquecer de vez a Cruz, e quem nela está suspenso. De fato, às vezes a Cruz nem está lá. E no centro não fica mais o Cristo em seu sacrário pois o sacrário também perdeu seu lugar de destaque. Mas a cultura do povo, a “arte”… ah… estas, sim, têm vez e voz. E como têm!

Com o término das apresentações artísticas, a multidão vai ao delírio. Agora as palmas frenéticas são acompanhadas por assobios, gritos e até por pedidos de bis. A ovação é surpreendente e contrasta de maneira incrível com o semblante de uma mãe desesperada que, aos pés de uma certa cruz, chora o sofrimento do filho.

O povo, também presente neste mesmo sacrifício, reage de maneira diferente. Indiferente.

Mas o latim na placa da Cruz não passa despercebido e alguns querem que a mensagem seja escrita em grego, hebraico e vernáculo.

O vinagre e a esponja, usadas para pôr um gosto mais amargo ainda na penúria do Galileu, foram trazidos por moçoilas que entraram dançando com um pote e uma pequena bandeja.

Pouco antes de morrer, Nosso Senhor dá um grande grito. Ninguém ouviu. O solo de guitarra não deixou.

Nosso Senhor Jesus Cristo, então, morre.

O véu do templo rasga-se. E isto chama a atenção de alguns, fazendo com que um pequeno grupo vá imediatamente substituí-lo, colocando em seu lugar um pano estranho com cores e mais cores cujo único elo que as liga ser o fato de não terem significado litúrgico.

Um grande tremor de terra ocorre. Muitos pensam que é apenas as caixas de som com a batida da swingueira.

Escureceu. Bom momento para os fogos de artifícios.

Com tanta música animada e coreografias, não surpreende a multidão não lembrar, e os mais novos e indoutos não saberem, que tudo isso trata-se de um sacrifício, e não de uma festa.

Mas os que tentam lembrar que o principal não é a cultura daquele local ou o contentamento do povão, mas aquEle que está na Cruz do meio e que é ao mesmo tempo sacerdote, vítima e Deus, são calados ou não são ouvidos, assim como os poucos que não gritaram por Barrabás.

É confortante, entretanto, lembrar da Primeira Eucaristia. Na Santa Ceia, os apóstolos certamente, e felizmente, não pularam nenhuma música dos padres Marcelo Rossi ou Fábio de Melo.

Jedson Bernardino Guedes
† Aeternus seruus Dei

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